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Miss Simpatia

Luis Fernando Verissimo

Aline foi Rainha do Sesquicentenário da Independência, Mônica e Elvira, Princesas e Maria José, Miss Simpatia. E aconteceu de se encontrarem numa festa, justamente a festa com que o clube festejou os 30 anos do memorável baile em que as quatro tinham sido eleitas. Aline, Rainha. Mônica e Elvira primeira e segunda princesas, respectivamente. E Maria José, a Zequinha, Miss Simpatia. No encontro, elas gritaram e pularam e se abraçaram exatamente como tinham feito naquela noite, ao ouvirem o resultado do concurso.


Bem, não exatamente. Estavam 30 anos mais velhas. Mônica e Elvira tinham engordado bastante, como se engordar fosse uma sina das princesas. Aline não podia pular muito por causa do rosto e dos seios novos, sua última plástica fora semanas antes. Quem gritou e pulou com o mesmo entusiasmo foi a Zequinha. A Zequinha era assim. Esfuziante. Desde pequena. "Esfuziante" era um adjetivo criado para ela. A Zequinha continuava esfuziante.


As quatro não tinham mais se visto desde o baile memorável. Aline, que estava noiva na ocasião (e, cochichava-se, grávida), casara em seguida, com um militar, e se mudara para o Rio. Mônica, que só viera à cidade para o feriado de 7 de Setembro e o baile, voltara para a escola. Elvira ficara na cidade até o fim daquele ano, mas frequentava pouco o clube, quase não era vista, falava-se que tinha problemas em casa. No fim do ano desaparecera com a família. Só a Zequinha nunca fora embora. Zequinha continuava na cidade.


Os organizadores do baile pediram para as quatro esperarem num camarim, antes de serem chamadas ao palco para relembrarem aquela noite, 30 anos antes. As quatro aproveitaram para trocar informações sobre suas vidas. Aline contou que estava no quarto marido. Gritos das outras. Mônica contou que trabalhava muito (psicóloga, consultora de empresas) nunca casara mas tinha um relacionamento com um homem bem mais moço. Mais gritos. Elvira contou que chegara a trabalhar como modelo, até tentara alguma coisa em televisão, mas agora só se dedicava a tratar do pai. As outras se lembravam, claro, dos problemas do seu pai. Ninguém se lembrava, mas todas fizeram ruídos de comiseração. Principalmente a simpática Zequinha. E quando as outras perguntaram como tinha sido a sua vida, Zequinha disse "A minha? Comparada com a de vocês, não foi nada!".

Rindo, como se "nada" fosse tudo que ela queria. A Zequinha vivia para o marido, os filhos e os netos, não queria outra coisa. A Zequinha continuava contente da vida.


Foi quando a Aline ficou séria e perguntou:

- Você não ficou chateada com o que eu disse aquela noite, ficou?

- Que noite? - perguntou Zequinha, ainda rindo.

- Do concurso.

- Eu não me lembro do que você disse!

- Jura?

- Juro. A única coisa que eu lembro daquela noite é o pulo que eu dei quando anunciaram o resultado. Eu, Miss Simpatia!

- Eu lembro do que você disse, Aline.

- Eu também.

Mônica e Elvira, primeira e segunda princesa, lembravam-se da maldade da Rainha. Trinta anos antes, Aline dissera que escolher alguém como Miss Simpatia num concurso de beleza era apenas uma maneira polida de lhe dizer que estava na festa errada. A faixa de Miss Simpatia não era consolo suficiente para Zequinha por não ser tão bonita quanto ela, Aline, e suas princesas.

- Juro que não me lembro! - disse Zequinha.

Aline explodiu:

- Pare com isso, Zequinha! Quer parar com isso? Eu era uma beleza e me transformei nisto. Até o meu cabelo é falso. Que saber? Até o cabelo. Essas duas ficaram esses horrores. Quando eu olho a minha faixa de Rainha, choro, está entendendo? Choro. Nenhuma de nós é mais o que era. E você continua a ser simpática! Só você ainda merece a sua faixa. Pare de ser simpática, Zequinha!

Aline passou a soluçar. As duas princesas não lhe deram atenção. Zequinha tentou consolá-la. Abraçou- a. Disse "Pronto, pronto." O que poderia fazer?

Continuava simpática.


Domingo, 25 de abril de 2004.



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